Morre Paulo Vieira Lima, grande militante deste sindicato

A última vez que falei pessoalmente com meu colega, amigo e companheiro de militância sindical Paulo Vieira Lima foi em agosto do ano passado, em uma parada de ônibus no caminho de São Paulo para Bauru,  onde iria representar o Sindicato e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial - Cojira-SP em um evento do curso de jornalismo  da Unesp daquela cidade. Paulo me contou, animado, que estava  a caminho de alguma outra cidade do interior paulista para um compromisso, agora como advogado, sua nova profissão, que exercia em escritório aberto junto com os filhos. Conversamos rapidamente, como obrigava a situação, nos abraçamos e prometemos nos encontrar. Mas não cumpriremos  a promessa por que na quarta-feira (05/08) uma parada cardíaca, decorrente de complicações causadas por um AVC sofrido na semana anterior, levou embora meu amigo, aos 73 anos de idade .

Minha amizade com Paulo surgiu como resultado de nossa participação nas atividades do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo onde em 2001, junto com outrxs nove jornalistas negrxs (Amélia Nascimento, Benedito Egydio dos Santos, Esmeralda Ribeiro, Francisco Soares,  Maurício Pestana, Oswaldo de Camargo, Oswaldo Faustino, Ricardo Alexino Ferreira e Ronaldo Junqueira) fundamos a  Cojira, organismo voltado para dotar nosso sindicato de uma política de combate ao racismo.  Aliás, lembro que foi de Paulo a sugestão de que a nova comissão adotasse como parte do nome a sigla Cojira. 

Mas, quando a Cojira surgiu, Paulo Vieira Lima já tinha uma longa história de atuação sindical, tendo  dedicado muitos anos de sua vida às atividades da Comissão de Assessores de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de SP, da qual foi coordenador.  O jornalista Eduardo Ribeiro, ex-diretor deste Sindicato e atualmente diretor do site Portal dos Jornalistas, foi seu grande amigo durante décadas e  diz que  Paulo teve uma história de militância no sindicato mas nunca quis ser diretor, por achar que sua missão era colaborar como um apoiador, um militante: “Até onde me lembro, ele começa uma militância mais efetiva  na gestão do Emir Nogueira (1981/82). Acho que ela  foi moldada na gestão anterior, do Audálio Dantas (1975/78),  depois veio o David  Moraes (1978/81) e em seguida o Emir (que faleceu durante a gestão) e a Lu Fernandes (1982/84).  Ele entra nesse período e começa a se aproximar quando se forma a Comissão de Assessoria de Imprensa, dentro de uma visão de que era uma categoria que estava  ganhando espaço e que tinha muito jornalista, então precisava se organizar, porque era uma terra de ninguém.”


A despedida de Denise Fon

Para falar do Paulinho – é assim que eu o chamava e vou chamar pela vida inteira -, precisaria de muitas e muitas páginas, pois militando na Comissão de Assessoria de Imprensa do Sindicato de Jornalistas creio que vivemos um período muito rico na história desse sindicato. Nossos encontros estaduais reuniam um número muito maior (de jornalistas) que os encontros nacionais. Apesar das nossas posições corretas ética e politicamente, não havia em nós qualquer preconceito em conversar e se reunir com os empresários das chamadas agências de publicidade, que reuniam e reúnem grande número de jornalistas assessores de imprensa.  De temperamento aparentemente “belicoso”, o Paulinho era um poço de amor, harmonia e solidariedade com os amigos. Tô triste, meu amigo, tô triste. E prepara, aí onde tu estás, a recepção para nossa chegada, com muita caipirinha, cerveja  e vinho. E pra você um refrigerantezinho, abrirei mão. Um abraço e até breve, querido.


Outra passagem  de  atuação junto com Paulo Vieira Lima, da qual Eduardo Ribeiro se recorda,  foi durante a gestão  de Antônio Carlos  Fon (1990/93), quando ele assumiu a área comercial do sindicato e convidou Paulo para a nova empreitada: “A gente já era muito amigo por causa da comissão (de assessoria) e ele topou fazer esse trabalho. Ele traz a Cecília Queiroz e a gente começa a organizar primeiro a publicidade do Unidade. O jornal ganhou vida de verdade naquela fase em que começamos a trabalhar no comercial, e passa a elaborar alguns projetos editoriais para o sindicato e aí vem a (editora) Puente, que criamos para poder fazer esses projetos. O primeiro deles foi o guia Colunistas Brasileiros; o segundo foi o guia Brasileiro de Comunicação Empresarial e Assessorias  de Imprensa; depois foi o guia Fontes de Informação;  e por último o guia Cursos para Jornalistas no Exterior.”  Eduardo  explica  que, em um período de seis anos, foram feitas duas edições de cada um desses guias, totalizando oito publicações. “Isso foi marcante porque, na época, a gente fazia tudo, ia atrás dos recursos, eram publicações distribuídas gratuitamente para todos os associados, e tinha ainda uma receita que revertia para o sindicato.  A gente pagava tudo, dava os Guias e ainda tinha uma participação financeira para o sindicato.”

Mas claro que também existiram problemas. Esse mesmo projeto das publicações acabou gerando acusações de desmandos contra Eduardo e Paulo  por parte de um diretor do sindicato da época, um escândalo que chegou às páginas dos jornais. “O Paulo ficou muito magoado com tudo isso. Nós todos sofremos, mas ele sofreu mais que todos nós, por que era muito apaixonado.”

O tempo passou e essa tristeza também, mas o Paulo que conheci anos depois de tais episódios, vez por outra, ainda revelava  mágoas desse período conturbado.  A principal marca de sua presença, no entanto, era de um humor ferino, e o gosto  por brincadeiras com amigos e amigas. A história que segue ocorreu em uma época na qual, vez por outra, quando morria alguém da velha guarda do sindicato, o velório era realizado no auditório Vladimir Herzog. A outra personagem do episódio, também já falecida, é Regina Meira, mulher negra alta e sempre sorridente, funcionária  do sindicato e alvo frequente das traquinagens de Paulo, de quem era muito amiga. “Nesse dia que o cara morreu e tava chegando o caixão lá para o velório, - conta Eduardo - sai o Paulo correndo e fala pra ela: ”Ô Regina, o fulano de tal tá chegando aí, vai dar uma olhada lá”. Ela nem sabia que ele tinha morrido. Quando sai, vê o cara entrando no caixão, ficou branca, quase desmaiou. Ele fazia essas brincadeiras assim, né. Sempre foi muito bem humorado."

De minha parte, lembro de uma história que contou  em uma reunião da Cojira. Disse que uma vez, revoltado e triste com alguma situação de racismo, falou para sua mãe, de brincadeira: “Cansei, não sou mais preto.”. Foi trabalhar e quando voltou percebeu que os amigos olhavam meio torto pra ele. Não demorou muito para descobrir que a “veinha”, com se referia carinhosamente à mãe, tinha acreditado em sua surpreendente declaração e, de tão impressionada contara para seus amigos.

Formado em Jornalismo pela Cásper Líbero, foi  produtor e chefe de Reportagem da CBN, assessor de imprensa da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo, entre outras atividades. Na carreira acadêmica, fundou e dirigiu a Faculdade de Jornalismo da Universidade Guarulhos. Nos últimos anos, colaborou em diversas oportunidades com a Mega Brasil e foi colunista do Brasil Econômico. Deixa a esposa, Maria, os filhos Thais e Paulo, e três netas: Sophia, Alice e Laura