A aposta no fact checking

Jornalistas criam mais iniciativas para verificar o discurso público e revelar notícias falsas

Clique para acessar o site ColombiaCheckClique para acessar o site ColombiaCheckAs Farc vão receber um auxílio governamental de 1,8 milhão de pesos colombianos por cinco anos. Os combatentes não cumprirão nem um dia de pena. Timochenko, o líder máximo do grupo armado, pode se tornar o presidente da Colômbia.

Essas foram apenas algumas das afirmações falsas ou exageradas ditas pelo ex-presidente Álvaro Uribe antes do plebiscito que rejeitou o acordo de paz entre o Governo colombiano e a guerrilha, segundo o site de fact-checking ColombiaCheck.

O debate que antecedeu o voto dos colombianos foi permeado por mentiras, rumores e pós-verdades, segundo o editor do ColombiaCheck, Fabio Posada. Para ele, as pessoas se importam cada vez menos em conhecer a verdade e as razões por trás do comportamento de seus líderes.

“[As pessoas] estão mais propensas a seguirem um ideal que interprete seu descontentamento ou seus medos, mesmo que o líder que os une esteja manchado por inconsistências. Não estamos mais em um mundo em que se usa a razão. Estamos em um mundo que prefere o bullying. Esse é o desafio que devemos desvendar, os jornalistas e os checadores, na época em que vivemos”, disse ao Centro Knight.

Neste cenário da ‘pós-verdade’, as iniciativas de fact checking experimentaram um boom global, incluindo a América Latina, onde cada vez mais jornalistas estão envolvidos em iniciativas de checagem do discurso público ou de verificação das notícias e dos rumores que se proliferam nas redes sociais.

Ao pesquisar no Google hoje, é fácil identificar se você está se deparando com ‘fake news’ ou não. Desde fevereiro, um selo do Google Notícias indica quais informações foram checadas pelas organizações independentes Chequeado, na Argentina, Agência Lupa, Aos Fatos e Agência Pública, no Brasil, eChecaDatosMx e El Sabueso, no México.

Este é apenas um sinal do fact checking cada vez mais estabelecido na região ­– na América Latina, existem 14 das 115 iniciativas ativas de fact checking do mundo, segundo um levantamento de fevereiro deste ano do Dukes Reporters’ Lab. Em 2014, esse número era de apenas 3.

A checagem de dados não é novidade no jornalismo. Nas redações tradicionais, um texto precisa ser revisado antes da publicação para garantir a veracidade dos fatos e a precisão com a qual eles são descritos. Mas, a partir dos anos 2000, começou a despontar uma checagem após a publicação - desta vez, voltada para as declarações feitas por figuras públicas. A ‘verdade’ também começou a ser medida objetivamente, seja em ‘Pinóquios’ - como no Fact Checker, do Washington Post - ou em etiquetas de diferentes gradações - o Truth-O-Meter do Politifact.

“A checagem sempre foi parte do jornalismo. O que muda é que uma das etapas da produção de informação virou a cabeça da notícia”, disse Fábio Vasconcelos, coordenador do blog de fact checking É Isso Mesmo?, do jornal tradicional brasileiro O Globo, ao Centro Knight.

Segundo o Poynter Institute, o fact checking como o conhecemos hoje surgiu em 2003, com o lançamento do site Factcheck.org, nos Estados Unidos. Foi também no país que o gênero foi reconhecido como uma forma de jornalismo de grande valor, quando o PolitiFact levou o prêmio Pulitzer em 2009.

A prática cresceu, e hoje, os checadores do mundo têm uma rede internacional de colaboração (o International Fact-Checking Network - IFCN, do Poynter Institute), um código de princípios, uma conferênciaglobal anual e até um dia internacional do fact checking - dia 2 de abril, o dia seguinte ao da Mentira.

Os checadores latino-americanos estão entre os pioneiros dessa prática jornalística e estão ajudando a construir a forma com que a verificação do discurso vai parecer e como ela será feita no futuro.

INOVAÇÕES LATINO-AMERICANAS

Um dos capitães das inovações na área é o Chequeado, site argentino dedicado exclusivamente ao fact checking, o primeiro do tipo na América Latina. Desde sua criação em 2010, a organização afirma já ter usado sua metodologia em ao menos oito sites da região.

“O verdadeiro motivo para o sucesso das iniciativas [latino-amercanas] é o calibre de alguns dos líderes das organizações de fact checking da América Latina, começando pelo Chequeado, que realmente tem avançado muito no debate”, disse Alexios Mantzarlis, diretor do IFCN, ao Centro Knight.

Desde 2015, o Chequeado tem sua própria divisão para a inovação. Alguns dos projetos desenvolvidos sob esta bandeira incluem o Chequeador, plataforma para checagem colaborativa entre usuários (ou crowdchecking); o ChequeadoEducación, ambiente de aprendizado online; o CHQueate!, jogo de perguntas e respostas sobre fact checking; e a Justiciapedia, um mapa interativo sobre operadores de direito.

Uma dos avanços mais expressivos vindos de Buenos Aires, porém, é o uso de automação na checagem. Imagine, por exemplo, que um líder político faz um discurso e instantaneamente saberemos quanto do que ele fala pode ser provado por dados. Por enquanto, este cenário ainda pertence à ficção científica, comoexplica o diretor de inovação de Chequeado, Pablo Martín Fernández, neste artigo onde ele dá o exemplo acima. Mas a organização já tem trabalhado com a automação da checagem em declarações que passaram pelo método ‘manual’ antes.

Já existe tecnologia prática que ajuda a monitorar declarações feitas em jornais, debates legislativos e no Twitter, identificar quais já foram checadas pelo método do fact checking previamente e dar pequenos vereditos de ‘falso’ ou ‘verdadeiro’, como informou o site britânico Full Fact no ano passado, líder mundial na área. O protótipo argentino nasceu da colaboração com os colegas da organização do Reino Unido.

“A checagem é feita automaticamente, se alguém repete uma declaração que já foi checada. Temos um protótipo, que é apenas a primeira fase. Vamos continuar apostando na automação. Não vai acontecer imediatamente, mas em alguns anos as pessoas vão começar a usar a tecnologia”, explicou Laura Zommer, diretora executiva e de jornalismo do Chequeado, ao Centro Knight.

A próxima fase da automação, capitaneada pelo Full Fact com o incentivo da iniciativa de Notícias Digitais do Google, é usar Processamento de Linguagem Natural (uma área da computação que compreende as línguas humanas) e análise estatística para, além de identificar as declarações que ainda não foram checadas por humanos previamente, checá-las automaticamente em bases de dados.

O PÚBLICO CHECADOR

Outras iniciativas da América Latina têm inovado no formato da apresentação do conteúdo checado: ao invés de longos artigos, as organizações de fact checking têm apostado em ‘tuitaços’, vídeos, memes, GIFs e muito humor. (O próximo artigo deste post em duas partes sobre fact checking vai explorar esse assunto com mais detalhe)

“Há estudos que indicam que os tweets são frequentemente compartilhados sem serem clicados. Por isso, é importante que, principalmente os checadores, ofereçam informação precisa e correta nos 140 caracteres que estão disponíveis”, disse Mantzarlis.

Zommer ressalta que essa preocupação se deve especialmente pelo fato de que na região o público tende a ler menos sobre política - e, assim, ficar menos informado sobre as decisões feitas na esfera pública. “Pesquisas feitas nos Estados Unidos apontam que, para pessoas que já têm uma posição política forte, os fatos não ‘ajudam’. Mas para as pessoas que não estão tão envolvidas com a política, elas podem mudar de ideia”, disse.

No jornal carioca O Globo, o É Isso Mesmo? surgiu com uma campanha publicitária para combater as ‘fake news’ - termo popularizado pela campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

“O Trump só tornou mais evidente algo que já vinha acontecendo no mundo digital: o fato de que qualquer usuário pode produzir informação. O que acontece com o Trump é um poder político com uso de agenda para disseminar fake news. A tentativa do fact checking é se contrapor a esse volume de boataria”, disse Vasconcelos.

Na Argentina, as notícias falsas e a falta de transparência existem há muitos anos. Segundo Zommer, o público acaba acreditando no que parece verossímil. “Por exemplo, em 2008, o nosso governo [da Argentina] não publicou os registros de crimes. Em 2012, os registros de pobreza não foram publicados porque os índices estavam crescendo. Grande parte da mídia apenas publicou o que o governo dizia. Existe muita informação ruim e a mídia não quer ir além dessa informação. Isso não é jornalismo”, disse Zommer.

Nesse contexto, os meios digitais latino-americanos têm tentado atrair cada vez mais o público para participar da checagem dos fatos. Na plataforma Chequeador, do Chequeado, já é possível ver diversas declarações de figuras públicas que foram checadas utilizando o passo a passo da organização argentina de maneira colaborativa e votadas pelos usuários de acordo com sua relevância.

No Equador, a editora do site Ecuador Chequea, Desirée Yepez, conta que os próprios leitores têm pedido cada vez mais a checagem dos fatos. Os jornalistas tentam estimular a interação com o público principalmente por meio das redes sociais.

“Para fomentar e incluir o público, é preciso desenvolver estratégias de interação através das redes sociais e linhas de comunicação direta. Com elas, há também um processo de feedback que facilita a avaliação dos nossos produtos e o delineamento das nossas propostas futuras, ao mesmo tempo em que fortalecemos o vínculo com a comunidade que nos segue”, opinou ela.

No É Isso Mesmo? uma das fontes de pautas dos checadores são as redes sociais, principalmente os boatos surgidos nos grupos de WhatsApp, app de mensagens ultra popular no Brasil.

“Estamos fazendo um monitoramento de verdades, que passa pelas redes sociais. Isso não só porque há uma disseminação muito pouco responsável nesses meios, mas porque também existem agentes públicos usando esse aparelho disseminador”, declarou Vasconcelos.

No ColombiaCheck, há uma seção chamada Periodismo Impulsionado por la Gente (Jornalismo Impulsionado pelo Povo, em espanhol). Durante quatro meses, o site pediu sugestões do público de frases para checar e as colocaram em votação nas redes sociais. O autor da proposta ganhadora foi convidado a participar da checagem e da produção da reportagem e, assim, descobriu-se mais uma mentira dita sobre as FARC: que elas seriam o maior cartel do mundo.  

No entanto, na experiência colombiana o público mostrou mais interesse em propor declarações do que em participar do processo de checagem. “Vejo com cada vez mais preocupação que o público se indigna e grita essa indignação. Também insultam e polarizam. Mas não sei se chamaria isso de participação”, disse Posada. “Estamos refazendo essa seção porque aprendemos que a população quer ser levada em conta, mas não quer participar”.

EDUCAR PARA CHECAR

Para combater esse cenário, várias organizações têm investido em programas de educação em checagem de dados, voltados não apenas para jornalistas. Na Argentina, o Chequeado já ampliou o debate da verificação de fatos para adolescentes de 15 a 18 anos. Duvidar de declarações, ponderar sua relevância, checá-las com fontes oficiais, confirmar com fontes alternativas e colocá-las em contexto para descobrir se são verdade ou não se tornou um assunto de escola.

Em aulas do Chequeado Educación, os estudantes aprendem que checar dados é tarefa de todos os cidadãos que querem garantir uma sociedade democrática. A iniciativa mais recente da organização nesse sentido é “Ciudadanía activa y valor de la palabra: verificación del discurso en modelos de Naciones Unidas y modelo legislativo”, voltado para jovens participantes de simulações das Nações Unidas.

A ideia é ensinar não apenas à futura geração de votantes a importância da checagem de dados, mas também aos próximos políticos e representantes da sociedade. Ano passado, foram 1,2 mil estudantes de duas províncias portenhas; neste ano, o número aumentou para 5 mil de 5 províncias.

“O Ensino Médio é o momento que esses jovens começam a se tornar cidadãos. Na Argentina, eles podem votar aos 16 anos. Uma das coisas que observamos é que os professores ensinam como fazer bons discursos, mas não como usar a informação. Com grupos de fact checking, eles aprendem a fazer um discurso com boa informação”, contou Zommer.

No Brasil, duas iniciativas também se lançaram ao propósito da educação: como parte do International Fact-Checking Day, o site Aos Fatos lançou uma série de aulas online em parceria com o Instituto Tecnologia e Sociedade, do Rio de Janeiro, e a Agência Lupa estreou o Lupa Educação.

“É um braço para o público em geral, para quem quiser aprender a fazer o que a gente faz”, disse Cristina Tardáguila, fundadora e diretora da Lupa, ao Centro Knight. “Isso é extremamente importante na filosofia da empresa e na minha crença pessoal também. Uma pessoa que controla bem os dados acaba tomando decisões melhores”.