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Sex, 08 de Abril de 2016 16:27    PDF Imprimir E-mail
Jornalistas lançam o Comitê contra o golpe

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Primeira reunião será na próxima terça (12), às 19h, no sede do sindicato 

 

Em ato público realizado na noite de quinta-feira (7), que lotou o histórico auditório Vladimir Herzog, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo lançou o Comitê contra o Golpe, que discutirá propostas e encaminhamentos para reforçar a luta contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ele é a consequencia direta do Manifesto dos Jornalistas em Defesa da Democracia e dos Direitos Sociais, assinado por cerca de 2 mil profissionais de imprensa.

Diretores do sindicato e jornalistas que subescreveram o documento compuseram a mesa de debate. Entre eles estavam o presidente do Sindicato, Paulo Zocchi, o secretário geral, André Freire, o ex-presidente Audálio Dantas, o secretário geral da Fenaj, José Augusto Camargo (Guto), o presidente da Associação dos Jornalistas Veteranos, Amadeu Mêmolo, o diretor da COJIRA, Flávio Carrança, a presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais, Vilma Amaro, o jornalista Paulo Moreira Leite, a jornalista Maria Inês Nassif, o professor Laurindo (Lalo) Leal Filho, e o jornalista Altamiro Borges.

Na platéia, jornalistas, lideranças sociais e sindicais na luta em defesa da democracia, inclusive o presidente da CUT São Paulo, Douglas Izzo. Foi consenso entre os participantes o protagonismo das grandes empresas de comunicação na articulação de um golpe com o objetivo de derrubar o governo legítimo da presidenta eleita Dilma Rousseff e a necessidade da categoria em manter sua condição histórica de luta contra o autoritarismo e a censura.

“O que nos motivou a formular o manifesto foi a defesa da democracia no nosso país. O governo de Dilma Rousseff foi legitimamente eleito e não pode ser derrubado por causa de uma decisão da elite, da oposição, dos partidos tradicionais que, numa tentativa de golpe querem inviabilizar um governo com pretextos e criminalização de partidos de esquerda e seu líderes. Qualquer sindicato digno do nome tem que ter uma posição contra o golpe e em defesa da democracia porque esse é o terreno que permite a qualquer entidade defender seus trabalhadores e seus direitos sociais,” explicou Paulo Zocchi.

Para ajudar na resistência aos golpistas, a direção do Sindicato decidiu formar o Comitê de Jornalistas Contra o Golpe, que terá sua primeira reunião na próxima terça (12), às 19 horas, no próprio sindicato. Ele é aberto a todos os jornalistas. Para ajudar a financiar as atividades do comitê foi iniciada no próprio ato uma campanha de arrecadação de fundos que deverá ser permanente.

Zocchi disse que na operação Lava Jato o aparelho judiciário brasileiro tem passado por cima de preceitos democráticos, como a neutralidade judicial, o direito de defesa, a presunção de inocência e a quebra de sigilo de fonte como ocorreu recentemente com jornalista Breno Altman (presente na atividade) conduzido coercitivamente a depor na operação Lava Jato.

“Esse tipo de ação, de entrar na residência e apreender o material de trabalho de um jornalista viola o principal direito constitucional da nossa profissão, que é o direito do sigilo de fonte”, enfatizou.

Segundo José Augusto Camargo (Guto), dirigente da Fenaj, disse que objetivamente existe a preparação de um golpe e de ataque às instituições. "Objetivamente, a democracia está ameaçada. Algum dos jornalistas dos grandes veículos se encontram em um posição de submissão à estrutura ideológica das empresas de comunicação. Este é o drama do jornalista neste dia 7 de abril. Efetivamente não se realiza o trabalho jornalístico isento e de qualidade que a sociedade brasileira precisa. Este ato serve para que os jornalistas não defendam o governo, mas sim as conquistas democráticas do Brasil”, observou o dirigente.

 

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Movimento fascista

Já o ex-presidente do sindicato, Audálio Dantas, que dirigiu a entidade na resistência ao regime militar, classificou o momento como um movimento fascista de um grupo que tenta voltar ao poder por meio do golpe.

“O auditório Vladimir Herzog está lotado hoje como esteve na luta contra o regime militar. Estou hoje aqui no cumprimento de um dever com a minha consciência, que é a de resistência ao movimento fascista que tenta voltar ao poder pelo instrumento do golpe. É contra esta tentativa de destruição das conquistas do povo brasileiro na luta contra a ditadura militar. Hoje, como antes, é preciso ter consciência da necessidade de lutar e resistir contra aqueles que desejam o golpe”, disse ele, que conduziu, nos anos 70, as manifestações pelo assassinato de Vlado, ocorrido nas dependências do DOI- Codi em São Paulo. 

Vilma Amaro, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, declarou que não esperava ter que enfrentar, de novo, a luta contra um golpe. E ressaltou que, se durante os anos de chumbo o Jornal Última Hora funcionava como uma trincheira para o jornalismo contrário ao golpe, hoje blogueiros e sites da mídia alternativa cumprem o papel de ser o contraponto à “imprensa golpista”

Segundo ela, a imprensa brasileira está “submetida aos interesses do oligopólio e sequer tem sentimento de brasilidade, ataca a Petrobras e se coloca em defesa de interesses estrangeiros”. Vilma defendeu a importância de reeditar uma rede pela legalidade no país, que se oponha à campanha de ódio alimentada pela mídia.

Assassinato dos sem-terra

O jornalista Breno Altman agradeceu a diretoria do Sindicato pela nota "solidária, generosa e firme" contra sua condução coercitiva no dia 1 de abril. "É um evento menor perto da cadeia de fatos que caracterizam a escalada conservadora e golpista apenas revela que nós diante de uma ofensiva conservadora que não hesita em pisar nas garantias constitucionais e democratas para derrotar o campo progressista e impor brutal retrocesso ao nosso país", analisa ele. 

"Eu estava em Brasília e fui despertado pela voz da minha companheira ao telefone dizendo que a polícia federal havia chegado a minha casa por volta 6 horas da manha e tinha levado meu computador, disco rígido, caderneta de anotações no dia seguinte ao aniversário do golpe de estado de 64, e no dia seguinte da manifestação de 200 mil pessoas em Brasília que lembram o golpe de estado para dizer Golpe Nunca Mais! Prestei um depoimento ridículo de uma hora na qual as primeiras perguntas eram: há quanto tempo eu era jornalista e quanto tempo eu era filiado ao Partido dos Trabalhadores. Eu entrei na superintendência da Polícia Federal do mesmo jeito que eu sai: sem saber do que estavam me acusando, sem ver algum indício ou prova que justifica-se minha condução coercitiva e sem ter jamais recebido qualquer intimação para depor verbalmente no inquérito e janeiro. Tudo isso ocorreu ou nada disso aconteceu pelo um simples motivo eles precisam de espetáculo", relatou ele.

E continuou: "Eles desejam quebrar a Constituição para impor um brutal retrocesso nas conquistas sociais, econômicas e políticas do povo brasileiro. Eles desejam arrebentar os movimentos sociais. Hoje já temos sinais do que nos espera se não tivermos força para derrotá-los. No Paraná dos militantes do movimento sem terra foram mortas em uma emboscada pela policia federal. Eles estão trazendo a violência de volta para cena política do país. E nós estão respondemos: Não vai ter golpe, vai ter luta!"

 


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Clima horroroso

Maria Inês Nassif, que subescreveu o manifesto dos jornalistas falou da tensão instaurada no país e disse que acredita que sua geração já tinha dado sua cota para conquista da democracia no Brasil, mas não. “Nós, jornalistas, temos, nesse momento, um desafio duplo. Temos que ser parte ativa na resistência a essa ofensiva fascista. Mas, o pior é que, de alguma forma, o jornalismo é parte do clima horroroso que se criou nesse país”, disse.

Segundo ela, os jornalistas precisam se posicionar e não podem assimilar o discurso pró-golpe disseminado por seus patrões, as grandes empresas de comunicações. “Não podemos falhar. Essa luta tem lado”, defendeu. “É triste existir essa ofensiva, mas é triste também porque a mídia criou esse clima”, criticou.

O jornalista e professor Laurindo Lalo Leal Filho foi na mesma linha e disse que, como acontecia durante a ditadura militar, hoje os veículos estrangeiros representam melhor a realidade brasileira que a mídia verde-amarela. Segundo ele, há uma estrutura hegemônica de poder que faz com que apenas uma visão de mundo percorra toda a sociedade brasileira, mas é preciso também destacar a responsabilidade do jornalista nesse trabalho. “Porque não é o Otavinho, não são os donos dos jornais que escrevem os textos dos jornais. São colegas nossos”, disse.

Lalo destacou que há três tipos de jornalistas hoje, no país: “os que se vendem aos patrões, assumem a identidade do patrão e se acham parte da burguesia nacional”; os que estão na grande mídia trabalhando para ganhar o pão, “tendo que fazer matérias que vão contra a sua consciência”, mas que muitas vezes conseguem denunciar o que sofrem nas redações; e os que têm “coragem de se libertar dessas amarras”, disse.

“Estes estão ousando, fazendo um jornalismo que resgata a ideia do jornalista como agente social transformador e que é a grande alternativa à mídia hegemônica. Isso não morreu, apesar da asfixia imposta pela grande mídia”, constatou.

Para Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudo da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o sindicato foi corajoso ao realizar o evento, uma vez que representa a categoria cujo “patrão é o principal partido de oposição, a mídia”, que estaria à frente do golpe. “O papel que os barões da mídia cumprem é nefasto, de regressão civilizatória”, discursou.

Para ele, o que está em jogo na cena política não é o debate sobre corrupção, mas uma disputa de projetos para o país. “Querem voltar ao poder para retirar direitos, sabotar a soberania e criminalizar os movimentos sociais”, acusou.

 

Fotos Douglas Mansur

 

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