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A prisão temporária de sete integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e de três membros do diretório do PT no município paulista de Iaras, na região de Bauru, proporcionou um dos espetáculos mais deprimentes da mídia brasileira, nos últimos anos.
Há tempos não se via nos meios de comunicação tamanho estardalhaço por motivos tão pífios. No final de 2009, o MST ocupou uma fazenda no município de Borebi, usada pela Sucocítrico Cutrale para o plantio de laranja. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a área pertence à União, mas foi grilada por algum espertalhão e depois “vendida” à espremedora de frutas cítricas. Reza a lenda que, durante a ocupação, os sem-terra teriam derrubado 3 mil pés-de-laranja. Digo reza a lenda porque as únicas provas do monstruoso delito apresentadas à sociedade são imagens áreas feitas por oficial da Polícia Militar, no helicóptero da PM, que mostram um trator atropelando algumas pobres Citrus sinensis indefesas. Em 26 de janeiro de 2010, os supostos envolvidos no genocídio cítrico foram presos, numa operação da Polícia Civil, batizada de “Laranja” - nome que, a propósito, veio bem a calhar. Além dos “cruéis assassinatos” (afinal, vegetais também são seres vivos), essas pessoas foram acusadas de furtar e depredar materiais que estavam guardados na fazenda. As prisões foram acompanhadas de perto por emissoras de TV e jornais. Muitos dos militantes foram filmados e fotografados com algemas no punho, como se fossem autores de crimes hediondos. Na verdade, pode-se dizer que cometeram um “crime” considerado imperdoável pelas elites brasileiras: tentaram lutar por uma vida mais digna. “Infelizmente, ainda existe no senso comum a ideia de que lutar pelos próprios direitos é coisa de bandido”, pondera o vereador de Bauru, Roque Ferreira (PT). A TV TEM, afiliada da Rede Globo na região de Bauru, foi o veículo de mídia que mais destaque deu à operação, com “links” diretos da porta da Delegacia Seccional de Bauru, que coordenou as prisões dos sem-terra e petistas. Apesar de todo o espaço dedicado à cobertura, em nenhum momento a emissora do impoluto José Hawilla (um dos patrões mais ‘exemplares’ do universo midiático) permitiu que os sem-terra se manifestassem sobre as prisões. A versão da Polícia (que, por sinal, é a mesma da Cutrale) foi mostrada como a única digna de crédito. Aliás, a todo instante os repórteres da emissora apresentavam a espremedora de frutas como a legítima dona da área. No decorrer da cobertura, não foi feita qualquer menção ao fato de a área ter sido grilada pela empresa. Ou seja, a TV TEM atuou como laranja na história. “Isso é sinal de péssimo jornalismo”, avalia o deputado estadual Simão Pedro (PT). “Uma reportagem que deseja de fato informar tem, necessariamente, de ouvir todos os lados envolvidos no caso, sobretudo numa situação de conflito com esta”, pensa. Depois da prisão, a emissora passou a ser abastecida diariamente pela Polícia com trechos de gravações que incriminariam os sem-terra. O secretário nacional de Movimentos Populares do PT, Renato Simões, afirma que o procedimento contraria as normas da própria Secretaria de Segurança Pública. Para ele, o caso está sendo tratado com sensacionalismo. “Quando o Daniel Dantas foi algemado, houve uma comoção geral por parte da mídia. Agora que os sem-terra foram exibidos com correntes em punho, tevês e jornais acham tudo normal”, critica.
Ato defende reforma agrária Em 3 de fevereiro de 2010, foi realizado na Câmara Municipal de Bauru um ato em defesa da reforma agrária. O encontro, proposto pelo vereador Roque Ferreira (PT), contou com a presença dos deputados estaduais Raul Marcelo (Psol) e Simão Pedro (PT), além do jurista e ex-deputado constituinte pelo PT Plínio de Arruda Sampaio - que, nas últimas eleições, concorreu ao Governo do Estado pelo Psol - e do membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) Gilmar Mauro. “Tentam partidarizar a questão e desestabilizar o principal movimento que atua na luta pela terra”, disse Simão Pedro, durante o ato. Raul Marcelo fez críticas pesadas ao Governo do Estado, hoje sob o comando do PSDB. “Estamos diante de uma prisão política que serve aos interesses de José Serra (virtual candidato da oposição à Presidência, nas eleições deste ano). Infelizmente, no Brasil, a ‘letra fria da lei’ ainda serve, muitas vezes, a interesses escusos”, atacou. Gilmar Mauro foi ácido em seu discurso. “As árvores que deram origem a essa polêmica (os pés-de-laranja) vieram bem a calhar. O fruto delas tem muita vitamina (C). Muita gente no Congresso e nos tribunais deve estar recebendo uma ‘vitamina’ da Cutrale”, disparou. Movimentos sociais e sindicatos - a maioria, entre elas o SJSP, filiada à Central Única dos Trabalhadores (CUT) - também marcaram presença no ato. Por sinal, em vários momentos a diretoria regional do Sindicato dos Jornalistas foi questionada a respeito da ausência dos colegas da TV TEM no evento. A emissora regional fingiu que o ato nunca existiu, imitando a postura canhestra adotada por sua “célula mater”, a Rede Globo, durante a Campanha das Diretas-Já, nos anos 80. Ao amarelar diante dos defensores da reforma agrária, a emissora laranja provou que não trabalha em favor do povo brasileiro, mas sim a serviço de interesses inconfessáveis dos amigos de seu proprietário.
Rodrigo Ferrari - jornalista e diretor regional do SJSP em Bauru
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