Justificativa

Campeã da desigualdade, a sociedade brasileira tem como uma de suas características centrais a tolerância à injustiça, ao autoritarismo e aos preconceitos. Essa herança funesta, que resiste quase intocada depois dos cinco séculos de história de nosso país, não desaparecerá espontaneamente. Ela se perpetua por que sua manutenção faz parte dos dispositivos ideológicos que justificam a manutenção dos privilégios dos ricos e só irá mudar se houver um forte movimento de opinião, em favor dos que sofrem com essa injustiça. Para fazer isso, é preciso que os setores da sociedade interessados em criar uma verdadeira democracia, com igualdade e fraternidade, atuem organizadamente.

No movimento sindical brasileiro, a consciência de que é necessário organizar setores discriminados da sociedade, como negros, mulheres e homossexuais, é relativamente recente.
Apenas na década passada, surgiu uma articulação política entre as centrais sindicais brasileiras que resultou na criação do Instituto Sindical Interamericano (Inspir) Pela Igualdade Racial, órgão destinado a subsidiar o movimento sindical e os movimentos sociais na luta pela igualdade de oportunidades e pela criação de políticas públicas para a população negra. O Inspir recebeu apoio de centrais sindicais dos Estados Unidos e da África do Sul, mas foi
principalmente resultado do ingresso no Movimento Sindical de uma geração de ativistas que trouxeram para o seu interior a experiência do Movimento Negro e que construíram dentro
de diversos sindicatos Comissões destinadas a dotá-los de políticas anti-racistas.

Dados do Mapa da População Negra no Mercado de Trabalho, realizado pelo Dieese para o Inspir, demonstram uma situação de reiterada desigualdade para os trabalhadores negros de
ambos os sexos no mercado de trabalho, nas seis regiões metropolitanas estudadas. A coerência dos resultados em nível nacional revela que a discriminação racial é um fato cotidiano, interferindo em todos os espaços do mercado de trabalho brasileiro. Nenhum outro fato, que não a utilização de critérios discriminatórios baseados na cor dos indivíduos,
pode explicar os indicadores sistematicamente desfavoráveis aos trabalhadores negros, seja qual for o aspecto considerado. Mais ainda, os resultados permitem concluir que
a discriminação racial sobrepõe-se à discriminação por sexo, combinando-se a esta para constituir o cenário de aguda dificuldade em que vivem as mulheres negras, atingidas por
ambas.

A comparação das taxas de desemprego nas diferentes regiões mostra que, em Salvador, a taxa de desemprego entre os negros é 45% maior que entre os não negros. Em São Paulo, ocorre fenômeno semelhante, com uma distância de 40% entre as taxas de desemprego e as duas raças (etnias). Nas regiões metropolitanas de São Paulo e Porto Alegre, a cor discrimina mais no desemprego que o sexo do trabalhador, ou seja, as taxas de desemprego são maiores entre homens e mulheres negros que entre as mulheres não negras. O mesmo efeito
discriminatório da cor se verifica na comparação entre as taxas de desemprego entre homens negros e não negros. As maiores diferenças nestas taxas encontram-se em Salvador,
onde o desemprego entre os homens negros é 57,9% maior que entre os homens não negros, e em São Paulo, onde esta diferença é de 51,4%.

Os rendimentos dos trabalhadores e trabalhadoras negras são sistematicamente inferiores aos rendimentos dos não negros, quaisquer que sejam as situações ou os atributos considerados. Eles expressam o conjunto de fatores que reúne desde a entrada precoce no mercado de trabalho; a maior inserção da população negras nos setores menos dinâmicos da
economia; a elevada participação em postos de trabalho precários e em atividades não qualificadas até as dificuldades que cercam as mulheres negras no trabalho. São indicadores,
por excelência, dos resultados da combinação da pobreza, da desigualdade e da discriminação na constituição da sociedade brasileira. A desigualdade que caracteriza a situação dos
negros mostra-se, com bastante clareza, quando comparados os rendimentos entre as duas raças, pois os rendimentos dos negros são, em média, cerca de 60% dos auferidos pelos não-
negros.

Estes dados divulgados pelo Inspir não deixam margens à dúvida: a discriminação do componente negro no mercado de trabalho é a expressão mais contundente da cultura racista e
discriminatória predominante na sociedade brasileira. Cabe ao movimento sindical, à classe trabalhadora e à comunidade negra, que representam, de fato, a maioria do proletariado
brasileiro, por meio de suas entidades, criarem as condições para um grande movimento de massa contra o desemprego, pelo combate à discriminação racial, pela igualdade de
oportunidades no mercado de trabalho e, principalmente, por uma transformação profunda na sociedade brasileira.

Jornalistas Negros
Tendo em vista os dados acima citados, é preciso saber qual é a verdadeira situação dos jornalistas negros. Não há nada que indique serem as empresas de comunicação ilhas de igualdade nesse mar de discriminação. Por isso é tarefa urgente saber quantos somos, onde estamos, quais os cargos que ocupamos e quais as condições de mobilidade dentro da profissão. Só a partir desse levantamento será possível saber se é necessário definir propostas de combate à discriminação e de promoção da igualdade a serem discutidas com os representantes dos patrões. É esse o sentido da proposta de mapear e analisar a
situação dos jornalistas negros no Estado de São Paulo.

Outra tarefa da Comissão é acompanhar e dar repercussão ao noticiário relacionado à questão racial. A idéia aqui é interferir junto aos diversos segmentos envolvidos na produção das notícias, a fim de reduzir as distorções decorrentes de visões etnocêntricas e também para permitir que o negro tenha na mídia uma presença proporcional ao seu peso demográfico e cultural na sociedade brasileira. Isso será feito por meio de cartas às colunas de leitores,
artigos, polêmicas e outros meios que venham a ser sugeridos.

A proposta de estimular a capacitação dos profissionais que já atuam na imprensa para que tenham uma melhor compreensão da questão racial vai no mesmo sentido. O pressuposto aqui é que os cursos de graduação e a sociedade em geral não permitem que a maioria dos profissionais de nossa categoria tenham uma visão clara dos problemas que afetam a comunidade negra brasileira e que isso gera distorções na abordagem de temas de interesse do povo negro. Existe aí um campo aberto para trabalho em conjunto com o Departamento de Formação deste Sindicato.

Organizar um Banco de Dados sobre a questão racial e a imprensa negra é uma tarefa que se enquadra perfeitamente dentro do objetivo de tornar o Sindicato um prestador de serviços. Um arquivo desse tipo, se bem organizado, será de grande utilidade para jornalistas e outros pesquisadores que precisem de informações sobre esses temas, e também seria um
instrumento de preservação da memória da cultura negra de nosso país.

A utilização do Jornal Unidade para divulgar matérias e discutir temas relacionados à questão racial já vem acontecendo. É preciso, no entanto, ampliar o número de colaboradores que escrevem sobre o tema, para que as matérias não fiquem restritas ao que pode ser produzido pelos integrantes da Cojira. A publicação deste texto no site do Sindicato marca o início da utilização da internet pela Comissão e deve ser o ponto de partida para a criação de uma
página ou um site próprios.

Amélia Nascimento
Benedito Egydio dos Santos
Esmeralda Ribeiro
Flávio Carrança
Francisco Soares
Maurício Pestana
Oswaldo de Camargo
Oswaldo Faustino
Paulo Vieira Lima
Ricardo Alexino Ferreira
Ronaldo Junqueira

Leia a tese "Visibilidade às Questões Étnicas nos Meios de Comunicação e no Mercado de Trabalho"